Reconhecimento de Padrões
Video
_Documentação em video da montagem no Museo de Arte Contemporânea de Goiás, julho, 2014
_Video documentation of the installation at Museum of Contemporary Art, Goinaia - Brasil, july 2014

Video
_Video master, 12 canais de vídeo e 6 de áudio
_Master Video/Sound / 12 channels of video and 6 of audio

Video
_Canal de vídeo 01
_Single channel


Agora a paisagem me conduz
 
1
Difícil imaginar uma paisagem que nos percebe. Difícil resumir qual paisagem habita nossa memória. Difícil encontrar arquétipos tão dissociados de nossa experiência. Difícil ir além do imaginário estandardizado por um cinema pré-formatado por mais de um século. Reconhecimento de padrões, a nova instalação de Fernando Velazquez nos facilita escapar dessas limitações. Em doze cenas que tomam nosso campo de visão, temos uma experiência de imersão, de sequestro dos sentidos. As imagens, em sincronismo oscilante, são captadas por um drone, que estende nosso olhar por ângulos sedutores em uma floresta. São vistas de uma máquina, mas que se anexam à nossa. Ao nos aproximarmos das telas, um sistema de blob detection percebe nossa proximidade, comentando a relação (termo preferível a interação) que ali se estabelece com sobreposições de imagens e impecável elaboração sonora de Francisco Lapetina. As imagens da floresta, de perto revelam uma mata intrincada, de longe formam padrões, em um conjunto sincrônico de vistas de cima, para os lados, para cima e para baixo. Há diferença e erro nessa repetição. Seria uma possível reconciliação entre natureza e máquina. Mas o que vemos é um sistema de visão. Temos um enigma, que não precisa ser decifrado, mas percebido, observado.
 
O trabalho, por mais que evidencie a natureza, faz emergir novas questões em torno das tecnologias da imagem. A cinemática do sistema envolve elementos que fazem vir e voltar nosso fascínio e incômodo por próteses auxiliares do olhar. Poderia ter sido sugestivo a teorias de um Paul Virilio, por exemplo, em momento ainda empático às tecnologias de visão, para descrever o estado maquínico de nossa sociedade.
 
2.
"Agora os objetos me percebem", escreveu Paul Klee. Com esta frase, Paul Virilio comenta o iminente surgimento das máquinas de visão, prevendo um processo contínuo de automação da percepção, ainda antes da web semântica, dos buscadores online e outras formas de "ver" a realidade objetiva. Tais máquinas afrontam a percepção num momento de hesitação com relação aos caminhos do "ver" na história das imagens técnicas, quando, "entender o visto" era privilégio dos homens, e não de máquinas e dispositivos de reconhecimento de padrões. Essas máquinas "seriam capazes não só de reconhecer os contornos da forma mas também da interpretação completa do campo visual, da representação, próxima ou distante de um ambiente?" pergunta Virilio, em 1993, em meio à emergência das máquinas de ver. Sim, tecnicamente, algoritmos já o fazem, responderíamos ansiosos, se fosse mera questão técnica em jogo. Melhor seria falar do subjetivo que escapa ao maquínico, diriam outros.
No início dos anos 90 previa-se com inquietação tal visão mecanizada, capaz de operar análises do meio ambiente, de gerar interpretações automáticas do sentido dos acontecimentos. Para Virilio as próteses de percepção automática, ligadas ao virtual, próximas demais da robótica militar, produziriam um imaginário do qual estariam excluídas nossas imagens mentais, e por consequência nossa própria condição diante do virtual.
O reconhecimento de padrões de trechos sonoros, de formas visuais sampleadas e identificáveis por software já faz parte de nosso dia a dia em operações ordinárias na internet. O reconhecimento de padrões de trechos sonoros, de formas visuais sampleadas e identificáveis por software já faz parte de nosso dia a dia em operações ordinárias na internet. Melhor seria falar de reconciliação.
 
3.
E seria o drone possível ferramenta para arte? Assim como outros sistemas já foram assimilados para linguagens diferentes para as quais foram criados? O olho mecânico que a tudo vê, já está entre nós, mas isso nem sempre é motivo reincidente de alarme.
A conexão entre guerra e comunicação segue recíproca, ambígua em muito da produção de imagens técnicas. O tema está invariavelmente conectado a sistemas de controle e vigilância na sociedade contemporânea. Os drones são armas de comunicação e ao mesmo tempo armas funestas. Nos domínios do politico e das liberdades civis, se tornou ícone dos conflitos ensejados pelo ver à distância. São olhos remotos, que não compactuam com o contexto local. Nos conflitos no oriente médio e Afeganistão drones sofisticados foram usados como máquinas mortíferas, como se operadas por usuários de um game online, indivíduos treinados para se manter longe de questões subjetivas, inabaláveis por afeto ou comoção. O distanciamento afetivo é fator essencial de sua eficiência letal.
Mas nos domínios cinemáticos é também associado a trabalho de cineastas, fotógrafos, goógrafos, ativistas. Mapeamento geolocalizado, cartografia e reconhecimento de padrões aéreos, eram antes privilégio de órgãos governamentais ou experts. Eram padrões que demandavam o papel do especialista, como um técnico em táticas e medições de guerra. A experiência, bem como sua análise, está hoje disponibilizada a muitos, em uma sintaxe visual que tende ao comum. Estética da comunicação disseminada pelo Google, mapas abertos do tipo wiki e associada às cartografias 'do-it-yourself' de um mundo online. Uma vez usados de forma descentralizada e livre, os olhos remotos podem se somar às janelas, portas e formas de conexão com o mundo lá fora. E talvez nos realinhe com uma prática que reativaria possibilidades de percepção assistida, de um instrumental potencializador de possibilidades de ver. "Quanto mais os telescópios forem aprimorados, mais estrelas surgirão no céu", dizia Gustave Flaubert.
 
 
4.
Virilio aponta que o olhar é relativo, topológico e teletopológico, sendo a memória fator preponderante nas operações de reconhecimento. A memória opera em conjunto com nossa imagem mental.
Ver, e entender agora está cada vez mais relegado ao dispositivo. Mas a inclusão do tempo, seja nas imagens mentais seja nas criadas tecnicamente pelo homem, demanda esforços de memorização da sua sequência. E agora a imagem também me percebe. Ela se altera e se ressignifica em sua superfície, em sua temporalidade. A nós, nos cabe fruir. Mas talvez tolere um pouco mais de liberdades. Afastar ou aproximar, deixar-se apreender por uma paisagem que nos encara, que repete movimentos, forma padrões resconhecíveis, desfaz o artifício, para deleite dos sentidos.
Em proposta de reconciliação, voltemos então à subjetividade. Carregamos a memória de paisagens não vistas, de um olhar que nos toma pelo extracampo, que escapa à objetiva meramente especular do aparato fotográfico. Daí lembramos: não somos reféns do dispositivo, usufruímos dele! O enigma é linguagem, mas não é mais a interface o que importa. Em Reconhecimento de Padrões, é o maquínico que nos incita a uma reconciliação com a paisagem, com o que escapa, com a natureza, com nossa capacidade de alumbramento.

Lucas Bambozzi, julho de 2014